O recente uso de inteligência artificial tosca nas chamadas de filmes da TV Globo é apenas o sintoma mais visível de uma doença crônica: a desconexão total entre quem decide e quem consome. Quando uma empresa que construiu o maior império audiovisual do hemisfério sul recorre a ferramentas genéricas de IA para gerar vinhetas sem alma, o recado ao público não é de inovação, mas de desespero e preguiça estética.
Demissões em massa e cortes de custos pontuais não estancam essa hemorragia. O problema da emissora nunca foi a folha de pagamento técnica; é o vazio estratégico no topo da pirâmide.
O mito do ecossistema digital
A tentativa de transformar o conglomerado em uma força de tecnologia e streaming expôs fragilidades estruturais que nenhuma campanha de marketing consegue maquiar:
O poço sem fundo do Globoplay: Uma plataforma pensada para competir com Netflix e Disney, mas presa a interfaces truncadas, UX inconsistente e uma experiência de cliente frustrante. Sem escala internacional, tornou-se um ralo de capital que depende de subsídios cruzados e acordos de distribuição frágeis com operadoras de telecomunicações.
Perda de hegemonia nos esportes: A quebra do monopólio do futebol e o desleixo no tratamento de propriedades nobres, como a Fórmula 1, aceleraram a migração de um público qualificado para canais digitais independentes, plataformas de nicho e transmissões diretas dos detentores de direitos.
Perseguição cega ao engajamento efêmero: A aposta em nomes do ecossistema de influenciadores para tentar rejuvenescer a grade aberta dilui a identidade editorial sem converter a audiência jovem do TikTok em telespectadores fiéis de televisão linear.
A miopia do isolamento geográfico
Enquanto gigantes regionais como a Televisaunivision consolidaram pontes entre a América Latina e o mercado hispânico dos Estados Unidos, a Globo passou décadas confinada ao conforto da barreira linguística brasileira.
A empresa assistiu à explosão global de orçamentos de entretenimento sem nunca arriscar passos verdadeiramente disruptivos fora do seu quintal:
Nenhum investimento real em games: O mercado global de videogames já fatura mais do que cinema e música somados. Uma fração dos recursos queimados em tentativas digitais redundantes poderia ter financiado estúdios locais focados em propriedades intelectuais interativas de alto orçamento com apelo internacional.
Inexistência de produção nativa em espanhol: Apesar da proximidade com dezenas de mercados vizinhos, o grupo nunca estruturou uma linha de produção voltada a liderar narrativas em língua espanhola, limitando seu alcance de exportação a vendas pontuais de formatos de telenovelas já amortizadas.
A pergunta que a liderança da emissora evita fazer diante do espelho é simples: os executivos que aprovam a grade atual sentem prazer genuíno em assistir ao que colocam no ar?
A resposta transparece na tela. Se o comando da emissora continuar preso à lógica de defender posições herdadas em vez de arriscar em novos formatos de escala global, a transição da TV linear não será apenas uma redução de margem — será o fim da relevância cultural da marca antes do final desta década.
