Governo, empresas e população: quem depende de quem?

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Sempre que o assunto é investimento em pesquisa, ciência e inovação, aparece aquela discussão: “Sem o governo, não teria pesquisa”. Logo vem a resposta: “Mas, sem as empresas, de onde sairia o dinheiro para o governo investir?”

As duas falas reconhecem partes importantes dessa relação. O problema começa quando cada uma tenta explicar tudo sozinha.

Quero propor uma reflexão: quanto do desenvolvimento de uma cidade depende justamente da capacidade de conectar esses atores?

A população também faz parte dessa conta

Quando colocamos governo de um lado e empresas do outro, parece que a população está apenas assistindo à discussão. Só que ela participa de todo o processo.

É gente que trabalha, empreende, consome, paga tributos, estuda e pesquisa. É também quem utiliza os serviços públicos e sente, no cotidiano, os efeitos das decisões tomadas pelo poder público e pelas empresas.

Inclusive, vale lembrar: a arrecadação pública tem diferentes fontes. Quando alguém faz uma compra, por exemplo, também contribui por meio dos tributos presentes no consumo. Por isso, dizer que todo o recurso público vem das empresas simplifica uma relação muito mais ampla.

E são as necessidades dessa população que deveriam ajudar a orientar nossas prioridades. Afinal, estamos produzindo conhecimento e movimentando a economia para melhorar o quê? E para quem?

O conhecimento precisa encontrar os problemas

O governo tem um papel importante no financiamento da pesquisa, na formação de pessoas e na construção de infraestrutura. São investimentos que podem exigir continuidade e levar anos para apresentar resultados.

As empresas também podem financiar pesquisas, desenvolver tecnologias e levar soluções ao mercado. Ao mesmo tempo, dependem de profissionais qualificados, infraestrutura e conhecimentos construídos ao longo do tempo.

As universidades e instituições de pesquisa participam dessa relação formando pessoas, investigando problemas e produzindo conhecimento.

Mas a existência desses atores, por si só, não garante que a conexão aconteça.

Uma empresa pode enfrentar uma dificuldade que poderia ser investigada por um grupo de pesquisa próximo. Uma universidade pode desenvolver um trabalho relevante que não chega a quem poderia utilizá-lo. Uma gestão pública pode definir ações sem aproveitar o conhecimento disponível no próprio território.

Cada um segue trabalhando. As oportunidades de colaboração ficam pelo caminho.

E aqui em Santarém?

Quando penso nessa discussão olhando para Santarém e para a nossa região, vejo uma pergunta muito prática: estamos conseguindo aproximar quem conhece os problemas de quem pode ajudar a construir as respostas?

O empresário consegue apresentar seu desafio a uma instituição de pesquisa? O pesquisador encontra espaço para ouvir as demandas locais? A gestão pública cria condições para essa aproximação? A população participa da definição das prioridades?

Não basta colocar representantes em uma sala, fazer um evento e registrar a foto. A conexão precisa continuar depois: com um problema definido, responsabilidades assumidas e acompanhamento.

Também precisamos reconhecer que nem toda pesquisa terá aplicação comercial imediata. Conhecer melhor o território, orientar uma política pública ou melhorar um serviço já são contribuições relevantes.

Cada um tem uma responsabilidade

Falar em interdependência não significa aliviar a cobrança sobre ninguém.

O governo precisa aplicar bem os recursos e dar continuidade às ações. As empresas precisam reconhecer seu papel no desenvolvimento do território. As instituições de pesquisa precisam ter condições de trabalhar e canais de diálogo com a sociedade. E a participação da população precisa ter consequência nas decisões.

É possível cobrar cada parte e, ao mesmo tempo, reconhecer o quanto elas dependem umas das outras.

Talvez esse seja um bom ponto de partida para a nossa próxima conversa sobre desenvolvimento: além de defender a importância da instituição que representamos, explicar o que estamos dispostos a construir com as outras.

No espaço em que você atua, qual conexão está faltando — e o que você pode fazer para aproximar essas pontas?

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