Quando o assunto é inovação, muita gente olha para o Brasil e enxerga apenas atraso. Faltam recursos, sobram obstáculos e transformar uma pesquisa em negócio continua sendo um desafio.
Mas essa visão deixa uma parte importante da história de fora: o país produz resultados que superam o esperado para seu nível de desenvolvimento.
O Índice Global de Inovação de 2026, publicado pela Organização Mundial da Propriedade Intelectual, coloca o Brasil na 53ª posição entre 139 economias. Esse número merece atenção, mas sozinho não explica nossa situação. É preciso olhar também para a relação entre renda e desempenho em inovação.
O que significa inovar acima do esperado?
Comparar países exige considerar suas condições econômicas. Uma economia com renda elevada tende a ter mais capacidade de financiar laboratórios, formar pesquisadores, desenvolver infraestrutura e apoiar empresas inovadoras.
Por isso, o relatório também identifica economias cujo desempenho supera a expectativa para seu nível de desenvolvimento.
Em 2026, a WIPO reconhece 21 economias nessa condição. O Brasil é a única da América Latina e do Caribe nesse grupo.
Isso não significa que alcançamos os líderes mundiais ou que nossos problemas foram resolvidos. Significa que há uma capacidade de inovação no país que precisa ser reconhecida e melhor apoiada.
Os resultados aparecem, mesmo com obstáculos
Outro dado ajuda a entender esse cenário: o Brasil ocupa a 66ª posição nos insumos de inovação e a 50ª nos resultados. Os insumos abrangem condições como instituições, formação, pesquisa, infraestrutura e ambiente de negócios. Os resultados incluem produção de conhecimento, tecnologia e atividades criativas.
Minha leitura é que temos pessoas e organizações capazes de gerar resultados relevantes, mesmo em um ambiente que ainda impõe dificuldades.
Mas essa diferença entre posições não é uma medida direta de eficiência. Também não autoriza concluir que investir pouco seja suficiente. Ela reforça a necessidade de entender nossas forças e corrigir os obstáculos que limitam seu alcance.
Valorizar quem pesquisa exige oferecer condições
O texto que motivou esta reflexão lembra experiências como São José dos Campos, com ITA, INPE e Embraer, e o Porto Digital, em Recife. São exemplos que ajudam a pensar na importância de aproximar conhecimento, formação profissional e atividade empresarial.
Essa aproximação precisa ser construída e mantida. Exige instituições, investimento, relações de confiança e tempo para que projetos amadureçam.
Reconhecer a dedicação de pesquisadores e empreendedores brasileiros é justo. Porém, transformar a dificuldade em motivo de orgulho permanente pode esconder um problema: ninguém deveria depender de esforço excepcional para compensar a falta de condições básicas.
O país precisa dar continuidade ao que funciona, reduzir a instabilidade e criar caminhos para que mais pesquisas cheguem à sociedade e ao mercado.
O que isso tem a ver com a Amazônia?
Para quem trabalha com inovação no oeste do Pará, essa discussão está muito próxima da realidade.
Defendo que nossa agenda parta de problemas concretos: melhorar a logística, fortalecer pequenos negócios, agregar valor à produção regional, ampliar o acesso a serviços e desenvolver soluções para as necessidades do território.
Em Santarém, aproximar universidades, empresas, associações empresariais e poder público pode ajudar a transformar conhecimento em aplicações úteis.
Essa conexão exige mais do que encontros e apresentações. É preciso identificar demandas, testar soluções, avaliar resultados e apoiar sua adoção. A gestão da propriedade intelectual e a transferência de tecnologia também devem entrar nessa conversa, ajudando a organizar parcerias e o uso dos conhecimentos desenvolvidos.
O próximo passo é ampliar nossa capacidade
O desempenho brasileiro acima do esperado merece reconhecimento. Também deve aumentar nossa responsabilidade com o futuro.
Minha convicção é que podemos avançar com financiamento previsível, prioridades bem definidas, acompanhamento dos investimentos e maior aproximação entre pesquisa e empresas.
Na Amazônia, isso significa construir uma agenda que reconheça o conhecimento existente e crie condições para transformá-lo em oportunidades locais.
O Brasil já demonstra capacidade de inovar. Precisamos fazer com que essa capacidade alcance mais empresas, mais territórios e mais pessoas.
